Certeza da Salvação
[ensino a um duvidoso crítico]
Olá FFFF, a paz seja contigo!
Se me permite, gostaria de fazer alguns comentários sobre sua resposta
ao meu diálogo. Peço que não repare na linguagem e na estrutura do meu
texto, pois o escrevi na correria. Você escreveu:
"A Salvação é sim por meio de Jesus, mas isso também depende de
nossas atitudes."
Eu entendo sua preocupação ao escrever isso. Você tem medo, como muitos,
que a graça de Deus se transforme em dissolução (Jd.4), e que os
cristãos pensem que, afinal, podem pecar o quanto quiserem, pois são
salvos pela graça. É uma preocupação sincera, reconheço. No entanto, não
posso concordar com sua frase acima, e vou explicar o motivo.
A Bíblia é bem clara ao afirmar que nossa salvação é totalmente pela
graça: “Pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo
justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em
Cristo Jesus” (Rm.3.23-24) ; “Porque pela graça sois salvos, por meio da
fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que
ninguém se glorie” (Ef.2.8-9); etc.
Nós só compreendemos corretamente essa verdade quando conhecemos qual a
nossa condição e posição diante de Deus. Já nascemos “mortos em ofensas
e pecados” (Ef.2.1), cada um de nós é “servo do pecado” (Jo.8.34) e, por
natureza, “... todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças
como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas
iniqüidades como um vento nos arrebatam” (Is.64.6). Além dessa corrupção
interior, todos nós nascemos debaixo da condenação do pecado, pois “o
salário do pecado é a morte” (Rm.6.23). Em tal situação é impossível que
o homem contribua, com o mínimo que seja, em sua salvação. Assim como um
morto não pode fazer coisa alguma, um morto espiritual não pode fazer
nenhum bem espiritual.
Por isso nossa salvação depende inteiramente de Deus, que por Sua
maravilhosa graça, enviou Seu Filho ao mundo para viver e morrer em
nosso lugar. E não apenas isto, é Ele quem nos ressuscita
espiritualmente (Ef.2.1) e nos traz a Cristo. Sem essa ação de Deus,
operando o novo nascimento (Jo.3.3), ninguém viria a Cristo: “Ninguém
pode vir a mim se o Pai que me enviou o não trouxer” (Jo.6.44). Nem o
arrependimento e a fé podem ser considerados como uma obra nossa da qual
depende nossa salvação, pois a Bíblia ensina que até essas coisas são
dons de Deus dados a nós: “Porque a vós vos foi concedido, em relação a
Cristo, não somente crer nele, como também a padecer por ele, ...” (Fp.1.29);
“Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência, e
longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao
arrependimento?” (Rm.2.4). A fé não é a causa da nossa salvação, mas o
instrumento pelo qual nos apropriamos dela. Além disso, como eu disse
acima, a fé, juntamente com o arrependimento, é um dom de Deus.
Talvez você concorde com tudo o que eu disse até agora, mas afirme que
se o cristão não permanecer na fé e não for obediente em sua vida cristã
poderá perder a salvação. No entanto, ao contrário do que a maioria dos
cristãos pensam, a salvação não pode ser perdida, justamente pelo fato
de a salvação ser pela graça e não depender de obras! Isso é ensinado em
toda a Bíblia e aqui citarei apenas algumas passagens. Jesus disse em
João 6.47: “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim
tem a vida eterna”. Tudo aqui está no presente. Se alguém crê em Jesus
com verdadeira fé, então ele já tem, no presente, a vida eterna. Jesus
não disse que aquele que crê n’Ele terá a vida eterna, mas que já tem
aqui e agora. Ora, se a vida que o cristão tem é eterna, é ilógico
pensar que ela possa ter um fim ou que ele possa perdê-la, afinal, ela é
eterna.
Ainda sobre isso, Jesus disse: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e
eu conheço-as, e elas me seguem. E dou-lhes a vida eterna, e elas nunca
hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas
deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de
meu Pai ” (Jo.10:27-29) . Jesus afirma que Suas ovelhas, que receberam
a vida eterna, nunca hão de perecer, e ninguém (inclusive as próprias
ovelhas, obviamente) poderá arrebatá-las e das mãos do Pai (e de Suas
mãos, obviamente - Jo 10.30). Paulo também fala sobre isso em Filipenses
1.6: “Tendo porcerto isto mesmo, de que aquele que em vós começou boa
obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo”.
Mas talvez a passagem mais forte sobre o assunto se inicie no capítulo 5
de Romanos, onde Paulo começa a argumentar sobre a certeza da salvação.
Do versículo 6 ao 11 Paulo apresenta um argumento incrível a respeito
disso, que eu não irei repetir pois já o expliquei no meu
Diálogo Sobre a Salvação pela Graça e Suas
Conseqüências. Do versículo 12 ao 21 Paulo faz um
paralelo entre Adão e Cristo, e mostra que, assim como o pecado de Adão
foi imputado a todos os seus descendentes resultando em condenação,
assim também a justiça de Cristo é imputada a todos aqueles que crêem
resultando em salvação. Isso acontece por causa de nossa união com
Cristo; nós estamos n’Ele e, graças a essa união, nossos pecados foram
imputados a Cristo, e a justiça d’Ele foi imputada a nós.
Depois de um parêntese nos capítulos 6 e 7, Paulo continua o tema da
certeza da salvação no capítulo 8 da mesma epístola, e inicia o capítulo
dizendo: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em
Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito”.
Ele continua o assunto e no versículo 30 afirma: “E aos que predestinou,
a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e
aos que justificou, a estes também glorificou”. Veja o que ele afirma:
os mesmos que são justificados (todos os que crêem) serão glorificados,
isto é, terão seus corpos transformados quando Cristo voltar. Ele não
disse que apenas alguns dos justificados serão glorificados, mas que
todos os que são justificados serão glorificados. E para mostrar a
certeza disso, ele até coloca a glorificação como um fato já consumado,
utilizando o verbo no passado: “a estes também glorificou” (e não
glorificará). Paulo encerra toda esta argumentação sobre a certeza da
salvação com uma passagem muito conhecida, mas pouco compreendida, para
a qual peço que você dedique a máxima atenção:
“Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra
nós? Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou
por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas? Quem
intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os
justifica. Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu ou, antes, quem
ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também
intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou
a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a
espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte todo
o dia, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas
estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou.
Porque eu estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem
os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a
altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar
do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm.8.31-39) .
Paulo mostra na passagem acima que nossa salvação depende totalmente de
Deus e do Seu amor por nós, que foi demonstrado na obra que Cristo
realizou em favor dos Seus escolhidos. E esse amor é tão grande que
absolutamente nada – nada mesmo, nem mesmo nós – pode nos separar dele!
Em nenhum momento Paulo afirma que a salvação depende de nossas
atitudes. O grande problema de muitos cristãos é achar que a salvação
depende daquilo que fazem, e não daquilo que Deus fez em Cristo de uma
vez por todas. Às vezes pensam e falam de tal forma que parecem crer que
eles mesmos se salvam. No entanto, nossa salvação é, do começo ao fim,
uma obra exclusiva de Deus, como Jesus, Paulo e todos os demais
apóstolos demonstram várias vezes. “Do Senhor vem a salvação” (Jn.2.9).
"Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Ef.2.9).
Somente quando compreendemos tudo isso é que entendemos o que significa
ser salvo pela graça e podemos louvar a Deus juntamente com Paulo,
humilhados e agradecidos diante do Trono da Graça: “Ó profundidade das
riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis
são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Por que quem
compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem
lhe deu primeiro a ele para que lhe seja recompensado? Porque dele, e
por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele
eternamente. Amém” (Rm.11:33-36) .
Depois de tudo isso talvez você volte à preocupação inicial sobre a
graça transformada em dissolução. Pois se a salvação não depende em nada
de nós, parece que podemos fazer o que quisermos e isso não fará
diferença nenhuma. Mas Paulo responde a essa questão no capítulo 6 de
Romanos, demonstrando que não é possível que aqueles que foram salvos
continuem a viver no pecado, porque eles estão unidos com Cristo em Sua
morte e ressurreição. Eles não apenas foram justificados, mas também
regenerados. A velha natureza dos cristãos foi crucificada e agora eles
têm uma nova. Não são mais servos do pecado, mas da justiça (Rm.6.18). O
prazer deles não é mais o pecado, mas a santidade. A obediência e as
boas obras surgem agora naturalmente, frutos de um coração que foi
transformado por Deus: “Pois somos feitura sua, criados em Cristo Jesus
para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas”
(Ef.2.10). Assim como uma árvore boa produz bons frutos, um verdadeiro
cristão produz boas obras (Mt.12.33).
Isso não significa que os que foram salvos não pecam mais, pois o
próprio apóstolo João reconhece que isso ainda irá acontecer: “Se
dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não
há verdade em nós [...] Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo
mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (I Jo.1.8,10). Então, nós
podemos perder a nossa salvação, devido aos pecados que ainda cometemos?
Não, e nessa mesma passagem João apresenta a solução: “Se confessarmos
os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos
purificar de toda injustiça [...] Meus filhinhos, estas coisas vos
escrevo, para que não pequeis; E, se, alguém pecar, temos um Advogado
para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos
nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o
mundo” (I Jo.1.9; 2.1-2). O sacrifício de Cristo é suficiente para nos
perdoar de todos os nossos pecados, passados, presentes e futuros. Além
disso, Jesus ainda está diante do Pai, como nosso Advogado.
Mas e se não confessarmos os nossos pecados a Deus, seremos perdoados?
Primeiramente, aquele que foi verdadeiramente salvo confessa seus
pecados a Deus. Isto é natural para ele. No entanto, é óbvio que há
muitos pecados que cometemos e não lembramos. E é possível que um salvo
morra sem ter confessado seus últimos pecados. Em tais casos obviamente
a pessoa é perdoada, porque o perdão não está alicerçado em sua
confissão, mas na obra objetiva de Cristo em Sua vida e morte. Nossos
pecados foram imputados sobre Cristo e Ele já levou a condenação por
eles. Por outro lado, a justiça de Cristo é imputada a nós quando
cremos, e graças a isso recebemos a vida eterna. Retomando o que já foi
dito, “Portanto, agora nenhuma condenação...” (Rm.8.1).
Se nossa salvação dependesse em algum momento de nossas obras todos
estaríamos perdidos, pois mesmo as nossas melhores obras que praticamos
como cristãos ainda são imperfeitas. Quantas vezes ajudamos o nosso
próximo com o fim de cumprir o mandamento de Cristo de amarmos o nosso
próximo como a nós mesmos, mas quando olhamos para dentro de nós
encontramos uma raiz de interesse próprio? Quantas vezes nós, que somos
ministros de louvor, fomos tomados de orgulho em meio à adoração, pelo
fato de Deus nos usar como instrumentos para edificação da igreja?
Sejamos sinceros, mesmo as nossas melhores obras não chegam aos pés do
que é exigido pela lei de Deus: "Conforme ao mandado da lei que te
ensinarem, e conforme ao juízo que te disserem, farás; da palavra que te
anunciarem te não desviarás, nem para a direita nem para a esquerda".
Citando novamente o profeta Isaías: “Mas todos nós somos como o imundo,
e todas as nossas justiças como trapo da imundícia” (Is.64.6).
Resumindo tudo o que foi dito até agora, a salvação depende inteiramente
de Deus e é totalmente pela Sua graça, sem nenhuma contribuição de nossa
parte. Todas as demais coisas que você escreveu em seu comentário,
falando sobre a necessidade do cristão se santificar, foram respondidas
por tudo o que eu disse acima. A santificação não é a causa de nossa
salvação, mas uma conseqüência. Só se santifica quem já foi salvo. E
quem já foi salvo necessariamente se santifica. Por isso, todo aquele
que foi salvo verá a Deus e pode ter certeza de sua salvação. Jesus já
fez tudo por nós. Portanto, descansemos n’Ele pela fé.
Meu desejo é que este texto possa esclarecer essas verdades a você e a
todos os cristãos que, por não compreenderem a graça de Deus e a justiça
de Cristo, ainda vivem temendo a morte e o inferno!
“Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar
e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória. Ao
único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e
poder, agora, e para todo o sempre. Amém”. (Jd.24-25)
Abraços,
André Aloísio
O principal dos pecadores (I Tm.1.15)
Todas as citações bíblicas são da ACF (Almeida Corrigida Fiel, da SBTB). As ACF
e ARC (ARC idealmente até 1894, no máximo até a edição IBB-1948, não a SBB-1995)
são as únicas Bíblias impressas que o crente deve usar,
pois são boas herdeiras da Bíblia da Reforma (Almeida 1681/1753),
fielmente traduzida somente da Palavra de Deus infalivelmente preservada
(e finalmente impressa, na Reforma, como o Textus Receptus).
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