Explosão das Seitas Marginais à Reforma

REV. ARNILDO KLUMB
SAMUEL FERRAZOLLI
REV. MÁRCIO

 

0. INTRODUÇÃO

A liberdade sobre a leitura bíblica imposta pela Reforma ocasionou um enorme avanço ao cristianismo, ou pelo menos, possibilitou-o a retomar os passos do cristianismo primitivo. Entretanto, tamanha liberdade fez com que várias correntes de interpretação surgissem nos séculos subseqüentes. Pessoas começaram a ler a bíblia de acordo com o seu tempo – o que respondeu a inúmeras perguntas, mas suscitou muitas interpretações distintas, principalmente quando era feito sem critério e por pessoas leigas influenciadas pelo sentimento. Estes leigos, sem formação acadêmica, e, principalmente nestes dois últimos séculos, fizeram-se ouvir pelas suas interpretações simplistas e populares. Diante dessas várias leituras bíblicas nos encontramos hoje. Veremos alguns ramos (abordaremos mais a questão do neo-pentecostalismo – pois trata-se de algo emergente e atual) que brotaram de maneira distorcida do seio reformado.

Faremos aqui uma breve definição de seita, a partir do que diz o Rev. Tácito Gama:
“O termo seita vem do substantivo latino secta e do verbo sequi, que significa seguir. A palavra grega que aparece na bíblia é háiresis, ou seja, heresia, que, por causa da semântica, foi traduzido na Vulgata por seita. No seu sentido original significa escola ou modo de pensar e de viver que é seguido por pessoas. O sentido original, portanto, não é pejorativo, visto que o próprio cristianismo foi denominado de seita (At 26.5). Com o tempo, o termo foi adquirindo um significado negativo, ou seja, espírito sectário, ferrenho, estreito, agressivo, maquiavélico”1. 


1. Seitas Proféticas

Seitas proféticas, em sua maioria, são movimentos que surgem a partir de uma visão fanática, de um sonho, uma revelação pessoal aliada à uma interpretação descontextualizada de algumas passagens bíblicas. Geralmente profetizam o fim dos tempos; sua linguagem natural é de sectarismo e sua argumentação está baseada em profecias futurísticas. Também não vêem Jesus como o único Deus, mas como um deus. Dentre elas podemos destacar: Adventistas do Sétimo dia, Mórmons, Ciência Cristã, Testemunhas de Jeová, Meninos de Deus, entre outras. 


2. Seitas Pentecostais

O pentecostalismo nunca foi homogêneo. Desde seu início, sempre conteve diferenças internas. As maiores diferenças na verdade, não são nem tanto teológicas, mas comportamentais, e são elas que definem a identidade pentecostal; desde o seu surgimento até agora, inúmeros ramos brotaram na árvore pentecostal. São difíceis, não de discernir, mas de dar-lhes uma identidade. Vários teólogos tentam dividir o movimento pentecostal. A divisão que achamos ser mais coerente é a de Paul Freston:

“O pentecostalismo brasileiro pode ser compreendido como a história de três ondas de implantação de igrejas. A primeira onda é a década de 1910, com a chegada da Congregação Cristã (1910) e da Assembleia de Deus (1911). A segunda onda pentecostal é dos anos 50 e início de 60, na qual o campo pentecostal se fragmenta, a relação com a sociedade se dinamiza e três grandes grupos (em meio a dezenas de menores) surgem: Quadrangular (1951), Brasil para Cristo (1955) e Deus é Amor (1962). O contexto dessa pulverização é paulista. A terceira onda começa no final dos anos 70 e ganha força nos anos 80. Seus principais representantes são a Igreja Universal do Reino de Deus (1977) e a Igreja Internacional da Graça de Deus (1980). O contexto é fundamentalmente carioca”2 

O tempo vai passando e mudando, com isso, determinando a leitura e o surgimento de novos grupos oriundos da fé pentecostal. Sua marca, em todas as classificações, é o sentimentalismo e a experiência. Desde quando surgiu, surgiu pela experiência e para ela. O homem foi colocado no centro para que pudesse sentir a experiência com o divino. Eis a classificação atual de pentecostalismo baseada em Freston:


a) Pentecostalismo Clássico

Fazem parte dessa linhagem, no Brasil, a Igreja Assembleia de Deus e a Cristã no Brasil. O termo clássico surgiu em meados de 1970, quando pesquisadores norte-americanos acrescentaram a designação classical às denominações pentecostais do início do século, período de gênese do pentecostalismo, para distingui-las de outras pentecostais ou carismáticas surgidas nos anos 60. Alguns autores também usam o termo histórico, ou ainda, tradicional. Para entender o que se denomina movimento pentecostal clássico do século XX, é necessário tornar claro o seguinte: É um movimento missionário de caráter mundial, que possui uma dinâmica própria, herdando muitos traços dos movimentos de santidade da Inglaterra e dos Estados Unidos, particularmente do metodismo. A grande maioria das igrejas pentecostais surgiram das igrejas históricas herdeiras da Reforma Protestante do século XVI. Seu marco inicial foi em 1900, quando Charles Parham, alugou uma "Mansão de Pedra", como era conhecida, em Topeka, Kansas para estabelecer uma escola bíblica chamada Betel. Cerca de 40 estudantes ingressaram na escola para o seu primeiro e único ano atraídos pelo seguinte propósito - "descobrir o poder que os capacitaria a enfrentar o desfio do novo século". O método de ensino era pesquisar e estudar um assunto, esgotando todas as citações bíblicas sobre o assunto e apresentá-lo para a classe em forma de sabatina oral, orando para que o Espírito Santo estivesse sobre a mensagem trazendo convicção. Até dezembro de 1900, já tinham estudado sobre arrependimento, conversão, consagração, santificação, cura e a eminente vinda do Senhor. No dia 25 de dezembro, Charles Parham iria se ausentar por alguns dias e deu a seguinte instrução para eles:

"Nós nos deparamos em nossos estudos com um problema. É sobre o segundo capítulo de Atos?... Tendo ouvido tantas entidades religiosas diferentes reivindicarem diferentes provas como evidências do recebimento do batismo pentecostal, eu quero que vocês estudantes estudem diligentemente qual é a evidência bíblica do batismo no Espírito, para que possamos apresentar ao mundo alguma coisa incontestável que corresponda absolutamente com a Palavra"3.

Três dias após, apresentaram seus trabalhos com a mesma história. Embora diferenças tenham ocorrido quando a benção pentecostal caiu, tinham como prova irrefutável o falar em outras línguas. Foi esta descoberta, que deu inicio o Movimento Pentecostal do século XX.  "Tal foi a magnitude e impacto do movimento, que, já na primeira década depois de Azuza , sabia-se de experiências pentecostais na Ásia, África, Europa e América Latina. O movimento se multiplicava agora em muitos movimentos com variedade de matizes e expressões, como um grande caleidoscópio"4.

O movimento pentecostal no Brasil, teve inicio com os missionários Daniel Berg e Gunner Vingren, crendo ter recebido revelações de Deus, vieram para o norte do Brasil -estado do Pará; onde, numa Igreja Batista, começaram a pregar o batismo com o Espírito Santo e ali fundaram a Igreja Assembleia de Deus. Outro missionário, Luigi Francescon, antigo membro da Igreja Presbiteriana Italiana de Chicago, também, por "revelação" de Deus, segue para a Argentina e Brasil, iniciando nos estados de São Paulo e Paraná a Congregação Cristã do Brasil.

Este movimento hoje é considerado como sério (principalmente quando se trata da igreja Assembleia de Deus). Teve uma origem leiga sob uma exegese contestável; entretanto, agora parece ser um movimento preocupado em servir a Deus.


b) Deutero-pentecostalismo

Nos anos 50, uma segunda onda pentecostal se iniciou, fazendo dos milagres e da cura divina sua principal ênfase, diferentemente da primeira onda, onde a ênfase recaia sobre a glossolalia, entretanto, o núcleo doutrinário permaneceu inalterado. Os pioneiros dessa nova onda são os ex-atores de filmes de faroeste do cinema americano: Harold Williams e Raymond Batright. Difundiram-na por meio do rádio (que era considerado até então pelo pentecostalismo clássico como mundano e diabólico). Dessa nova investida surgem denominações como a Igreja do Evangelho Quadrangular - Cruzada Nacional de Evangelização (1953)5; Igreja Pentecostal "O Brasil para Cristo"(1956); Igreja de Nova Vida (1960); Igreja Pentecostal "Deus é Amor"(1961); Casa da Benção(1964), Metodista Weslyana(1967) e uma enorme quantidade de pequenas denominações, formando comunidades locais. 


c) Neo-pentecostalismo

Finalmente, nos anos setenta, o país recebe o impacto da terceira onda pentecostal, vinda junto com uma crise econômica sem precedentes, crise internacional do petróleo e emergido em uma ditadura militar tentando resolver os problemas básicos do povo mais pobre. Dessa onda surgem o Salão da Fé(1975), a Igreja Universal do Reino de Deus( 1977)6, a Igreja Internacional da Graça(1980) e várias outras. Seu discurso básico, presente em todo momento é a cura divina7, porém com uma doutrina diferente dos pentecostais anteriores. Todas as aflições são resultante da onipresença de demônios na vida. A saída é o exorcismo, a freqüência constante aos cultos e a aplicação das várias terapias8 recomendadas pelo movimento. O movimento que foi chamado de "neo-pentecostal”, colocou em primeiro lugar a saúde do corpo, a prosperidade e a solução dos problemas psíquicos, colocando-as como resultado imediato da busca do sagrado. Ficaram para traz as preocupações escatológicas e até mesmo glossolalia. O velho dito de antes agradar a Deus do que aos homens foi fadado a existir apenas nas religiões já existentes. O que agora se vê é uma procura para agradar o homem, independentemente do agrado a Deus; Ele que se adapte a nova filosofia. Além disso, o "diabo" é enfatizado como o causador de todos os males que atacam os seres humanos, animais ou objetos. Daí, a importância que se deu ao exorcismo, uma maneira de se delimitar campos e forças aparentemente misturadas, que impedem a saúde, sucesso e prosperidade. Devido a tendência das igrejas pentecostais de aceitarem os dons de profecias e profetas, sem uma ortodoxia bíblica, criou-se um espaço para as afirmações da teologia da prosperidade, a qual encontrou um solo fértil para se firmar e crescer, no entanto, há algumas igrejas pentecostais que não fazem parte da teologia da prosperidade. Entretanto, há uma grande disparidade teológica entre as igrejas neopentecostais: alguns são predestinacionalistas, outros sabatistas, etc.; herança do pentecostalismo clássico e deutero. São muitos que se infiltram nas igrejas de Bíblia em punho, parecendo crer no que cremos; no entanto um estudo mais minucioso revelará que suas posições doutrinárias são inaceitáveis à luz das Escrituras e do cristianismo histórico e ortodoxo.

 

3. HISTÓRICO DAS IGREJAS NEOPENTECOSTAIS

3.1. Igreja de Nova Vida

Embora insignificante no cenário neopentecostal a Igreja de Nova vida desempenhou papel destacado como formadora e provedora dos líderes das duas maiores igrejas neopentecostais do Brasil: IURD e Internacional da Graça de Deus. De seus bancos saíram Edir Macedo, R. R. Soares e Miguel Ângelo. Já na nova vida encontramos uma forma embrionária das principais características do neopentecostalismo, ou seja: intenso combate ao Diabo, valorização da prosperidade material mediante a contribuição financeira, ausência do legalismo nos usos e costumes.

Foi fundada em 1960 no bairro Botafogo, RJ, pelo missionário canadense Walter Robert McAlister. A igreja surgiu como conseqüência de seu programa radiofônico A voz de Nova Vida. McAlister é oriundo de família pentecostal, e sempre se dedicou a atividade missionária, trabalhando como evangelista em vários países, onde nas Filipinas tem uma experiência profunda na libertação de demônios.

Em 1960 McAlister se estabeleceu no Rio, passando a pregar semanalmente no auditório da Associação Brasileira de Imprensa e anualmente no Maracanãzinho e deu início à Cruzada de Nova Vida. Ao contrário das demais igrejas neopentecostais formadas nos anos 50 e 60, a Nova Vida desde o princípio tinha como seu público alvo a classe média e média baixa. Este fenômeno só vai ocorrer nas demais igrejas neopentecostais a partir dos anos 80.

No ano de 1979 a Nova Vida foi implantada no Estado de São Paulo pelo seu líder. Contudo não obteve o mesmo sucesso entre os paulistanos, possuindo atualmente apenas dois templos.

Com a morte de McAlister em 1993 nos EUA seu filho, McAlister Jr., assumiu o poder da igreja. Mas, não desempenhou uma liderança carismática como o pai, por isso, em três anos já via sua liderança sucumbir. McAlister Jr. saiu e fundou a igreja Nova Aliança, conseguindo levar consigo um ínfimo contingente de pastores. Com o cisma sua mãe, Glória McAlister, se tornou a mais nova líder da igreja, mantendo quatro bispos à frente da Nova Vida, com Tito Oscar na presidência. Em seguida retornou aos EUA.

Apesar do cisma a igreja permaneceu firme, sendo que em meados de 1997, um ano após o “racha”, possuía 60 templos, 45 só no Rio.

Como o cargo de bispo aponta, o governo eclesiástico da Nova Vida é episcopal. Contudo, desde 1975, as congregações ganharam autonomia e independência administrativa, tornando-se congregacionais, mais democráticas e autônomas.

Atualmente a igreja cresce pouco pois seu público alvo é a classe média que é pouco receptiva aos métodos pentecostais. Outro motivo é a forte concorrência das outras igrejas neopentecostais, além da diminuição dos fenômenos extáticos e carismáticos em seus cultos.


3.2. Igreja Universal do Reino de Deus

Embora oriunda de uma “costela”da Nova Vida, a Igreja Universal é seu oposto em matéria de expansão e freqüência nas manifestações de poder divino e demoníaco na vida cotidiana dos crentes.

A Igreja Universal surgiu no cenário nacional em 1977 numa sala de uma ex-funerária no bairro da Abolição, subúrbio da zona norte do Rio., fundada por Edir Bezerra Macedo, carioca, filho de migrantes nordestinos. Seu pai era comerciante, sua mãe dona de casa. Edir é o quarto de uma série de 33 filhos, dos quais 10 morreram e 16 foram abortados por terem nascido “fora de época”.

Com 17 anos, em 1962, Edir Macedo começou a trabalhar como servente na Loterj, Secretaria de Finanças do Estado. Em 1977, quando era agente administrativo, pediu licença do trabalho, vindo a se desligar totalmente da Loterj em 1981. Nos começo dos anos 70 freqüentou a Universidade Federal Fluminense cursando matemática e a Escola Nacional de Ciências e Estatística onde cursou estatística. Acabou não concluindo nenhum. Com 18 anos se converteu ao mundo pentecostal, na Igreja de Nova Vida, através de sua irmã, que fora curada de bronquite asmática nesta denominação. Anteriormente freqüentava a Igreja Católica e os centros de Umbanda.

Depois de 12 anos como membro da Nova Vida, farto do elitismo da igreja e sem apoio para suas atividades evangelísticas, consideradas agressivas, decidiu alçar vôos mais altos. Em acordo com Romildo Ribeiro Soares, Roberto Augusto Lopes e dos irmãos Samuel e Fidélis Coutinho, fundou em 1975 a Cruzada do Caminho Eterno. Antes mesmo de Abri-la, Macedo e Romildo, foram consagrados pastores na Casa da Benção pelo missionário Cecílio Carvalho Fernandes. Com sua experiência com números e dinheiro, Macedo se tornou tesoureiro da Cruzada. Dois anos depois, nova cisão. Desentendendo-se com os irmãos Coutinho, Edir e os outros dois, além do bispo Carlos Rodrigues, fundaram a Universal. Entre uma cisão e outra, Macedo pregou de casa em casa, nas ruas, em praça pública e cinemas alugados.

No começo, o missionário R. R. Soares era o líder da Universal e seu principal pregador. Entretanto, sua liderança começou a declinar e Macedo surgiu como o novo líder. O estilo autoritário e centralizador de Macedo contribuíram e muito para a derrocada de Soares. No final dos anos 70 os dois chegaram a um impasse. Macedo propôs que a disputa fosse resolvida por meio de uma votação do presbitério. Macedo venceu o pleito. Soares foi recompensado financeiramente, e desligou-se da Universal, para fundar, em 1980, nos mesmos moldes, a Igreja Internacional da Graça de Deus. E foi assim que Macedo atropelou o cunhado, e se tornou o principal líder da IURD.

Em julho de 1980, por ocasião do terceiro aniversário da Universal, o pastor Roberto Lopes dirigiu o culto de consagração de Macedo ao bispado, momento em que a igreja adotou o sistema eclesiástico episcopal, tal qual o da Nova Vida. No mesmo ano, Lopes, ex-coroinha e ex-freqüentador da umbanda, sob ordens de Macedo, rumou para São Paulo com a missão de implantar a Igreja na capital. Fundou a primeira sede da igreja no Parque D. Pedro II, que mais tarde, foi transferida para o bairro da Luz, e em seguida, para o antigo Cine Roxi, no Brás, que se tornou sua sede nacional em 1992. Em 1984 Lopes retornou ao Rio. Dois anos depois ingressou na carreira política e foi eleito deputado federal pelo PTB/RJ com 54.332 votos. Em 1987, porém, desligou-se da Universal e retornou à “velha casa”. Com sua saída, Macedo passou a reinar absoluto.

O bispo Macedo foi morar nos EUA em 1986 com o intuito de expandir a Universal pelo mundo. Pretendia criar um núcleo de evangelismo mundial enviando os estrangeiros lá convertidos como missionários para seus países de origem. A estratégia não deu muito certo. Em 1990 optou em investir na clientela espanhola. Contudo, também não obteve o sucesso esperado.

Atualmente a Universal está inserida em mais de 50 países, seus templos chegam a mais de três mil, e possui mais de um milhão de membros.


Magia Organizada

Embora fartos de simbolismo e pródigos em manifestações sobrenaturais, os cultos da Universal caracterizam-se pela simplicidade. Além de simples, sua liturgia é despojada, sem roteiro rigidamente preestabelecido a ser seguido. Não existe um momento certo para orar, cantar, exorcizar ou ofertar. Os pastores detêm liberdade na direção do culto. A reunião tanto pode começar com oração, cânticos, corinhos, bem como no pedido para que as pessoas se aproximem do púlpito para participar da corrente de oração do dia. O pastor é quem faz tudo: ora, canta, prega, pede ofertas. Comanda o culto do princípio ao fim. Quanto às correntes de oração, aos rituais de exorcismo e de unção e à oração com imposição de mãos, o pastor conta com o abnegado e indispensável auxílio dos obreiros.

Desta forma, não é exagero afirmar que a Universal estabeleceu um sistema de magia organizado e bem elaborado. Ela institucionalizou denominacionalmente práticas e crenças mágico-religiosas de inspiração cristã. E isto deriva do fato dela se propor, na qualidade de mediadora dos poderes divinos, a resolver todos os problemas terrenos dos fiéis. É justamente para atender eficientemente a tais interesses e necessidades da clientela, majoritariamente pobre e pródiga em demandar soluções mágicas, que ela organiza e raciocina sua oferta de serviço religiosos. Verifica-se isto, de imediato, no fato de ter rotinizado a dispensação das graças divinas e fixado um calendário de cultos e rituais para prestar atendimento especializado a problemas determinados. Às segundas-feiras: oferece soluções sobrenaturais para quem deseja prosperidade; às terças: para cura física; às quintas: para problemas familiares e afetivos; às sextas: faz libertação espiritual (exorcismos); aos sábados: repete ritual para prosperidade. Os cultos de quarta e domingo são dedicados à adoração do Espírito Santo.

A Universal tem hinário próprio e seus cultos são intercalados com corinhos avivados. Apesar disso, não há ênfase no louvor, e sim, na luta contra o diabo e a evangelização. Os neófitos são normalmente aliciados como obreiros voluntários. Estes trabalham muito e nada recebem. Aqueles que carecem de tempo para serem obreiros ou pastores são encorajados a entrar na luta contra as hostes infernais (“guerra santa”), a pregar o evangelho, distribuindo folhetos em locais públicos, convidando amigos, parentes e vizinhos aos cultos e, sobretudo, a ofertar e ser fiel no pagamento de dízimo, colaborando para a expansão do reino de Deus na terra.

A igreja exige muito de seu pastores e obreiros, pois funciona como um verdadeiro “pronto-socorro espiritual”. Seus apelo às pessoas é “pare de sofrer”. Assim os pastores e obreiros têm de estar sempre de plantão. Sua membresia e clientela é formada por pessoas carentes, sofredoras e marginalizadas. Pesquisa realizada pelo ISER revela que 91% dos seus membros recebem menos de 5 salários mínimos, 85% não passaram do primário, 60% são pardos e 24% negros. Portanto, são os muito pobres e marginalizados que fazem a fortuna da Universal. A universal prega que há esperança para todos, e que Jesus deseja libertar as pessoas do mal e conceder-lhes “vida em abundância”. O Reino dos céus é aqui na terra. Enfim, prega a Teologia da Prosperidade. Ela também não desenvolve atividades assistenciais para seus membros. Neste caso, a ação social da igreja se restringe aos de fora. No Rio mantém dois orfanatos e dois asilos e oferece curso de alfabetização de adultos até a 4a série reconhecido pelo MEC. Em São Paulo assumiu a direção da Sociedade Pestalozzi, que possui escolas e sustenta projetos assistenciais para crianças excepcionais. Atua em delegacias e presídios. Criou a ABC, Associação Beneficente Cristã, em 1994 para combater a fome e desbancar os projetos assistenciais da VINDE.


A via-crúcis do pastorado

Para ser pastor na Universal, é preciso negar a si mesmo, tomar sua cruz, despojar-se de tudo, abandonar estudo, trabalho e, no caso dos solteiros, família. Pastores casados sem filhos e aqueles prestes a casar são aconselhados a fazer vasectomia para poderem se dedicar exclusivamente à obra divina. Os pastores praticamente não têm folgas. Estão sempre atarefados com os cultos diários, aconselhamento pastoral, programas de rádio e TV, vigílias e, no final do expediente, com montanhas de cédulas de dinheiro para contar. Dormem pouco. Trabalham muito. Família é aspecto secundário.

As esposas dos pastores também sofrem na Universal. Existem regras rigorosas sobre a conduta feminina: devem ser discretas, boas mães e amorosas, submissas e obedientes aos maridos. Sua maior preocupação deve a de não incomodar o marido. Além disso, deve também, ser o braço direito do marido e tudo fazer, voluntária e gratuitamente, desde a limpeza do templo até evangelismo em presídios, para ajudá-lo em seus afazeres. Na Universal há pastores nomeados e consagrados. Os primeiros exercem a função de auxiliar. São normalmente jovens. Não realizam casamentos nem ministram os sacramentos. Devem ser casados e mostrar aptidão para o ministério. Ganham apenas uma ajuda de custo. Os últimos ganham em média de 4 a 5 mil reais. No geral levam uma vida confortável. Muitos deles têm direito a plano de saúde, casa, telefone, carro, escola paga para os filhos. Nenhum destes bens, no entanto, lhes pertence. São da igreja. Os que se destacam assumem programas de rádio, espaço na TV e têm seus pedidos atendidos. Logo são transferidos para dirigir templos maiores.

A Universal não possui seminário. Tinha um mas fechou. Atualmente existe o Instituto Bíblico Universal, não obrigatório e com duração de 6 meses. O Governo eclesiástico da Universal é centralizado em torno de seu líder carismático. Pastores e congregações não possuem autonomia alguma. Os membros não escolhem os seus pastores, que são designados, e obedecem a um esquema de rodízio.

Quem não cumprir as exigências (dedicação, profissionalismo e aumento de produtividade) são sumariamente despojados.


Expansão e Consolidação

A Universal cresceu meteoricamente na década de 80. Quando completou três anos, em julho de 1980, tinha apenas 21 templos em 5 Estados. Em 1982, dobrou, passou a ter 47 templos em 8 Estados. Em 1983, chegou a 62 templos e alcançou mais um Estados, Em 1984, avançou para 85 templos em 10 Estados. Em 1985 saltou para 195 templo em 14 Estados e no DF. Em 1986, atingiu a marca de 240 templos em 16 Estados. Em 1987, tinha já 356 templos em 18 Estados, 2 em NY e mais 27 “trabalhos especiais” em cinemas alugados. Em 1988, além de 26 “trabalhos especiais”, possuía 437 templos em 21 Estados e Brasília. E em 1989, somava 571 templos. Nestes nove anos o número de templos da Universal cresceu 2.600%. Em 1998, já presente em pelo menos 50 países, a Universal estava fundando um templo por dia em média e possuía mais de 3000 deles no Brasil, e 700 no exterior.

Seu primeiro programa de rádio durava 15 minutos na rádio Copacabana. Em meados da década de 90 já mantinha em seu poder 40 emissoras de rádio. Em 1980 dava seus primeiros passos na TV, e já em 1989 comprava a Rede Record de Rádio e TV por US$ 45 milhões, no pacote também herdou uma dívida de 300 milhões de dólares, quitada logo depois.


Assédio da Imprensa e Discurso Vitimizador

Com a compra da Rede Record a Universal passou a ser questionada e investigada pela imprensa. Foi alvo de inúmeras reportagens especiais. Os inimigos do bispo Macedo começaram a aflorar. Dentre eles, destaca-se um ex pastor da Universal, Carlos Magno de Miranda, que acusava Macedo de sonegar impostos, remeter ouro e dólares ilegalmente para o exterior e de envolvimento com o narcotráfico. Porém, nada ficou provado.

Diante de todas estas acusações a igreja se posicionou como vítima de perseguição e discriminação religiosa. A prisão do bispo em maio de 1992 veio consolidar esta postura, e o discurso de perseguição aos crentes ganhou enorme força. Havia no âmbito nacional uma conspiração da imprensa e de seus aliados, entre os quais a Igreja Católica, a Rede Globo, o Diabo e os comunistas, para dificultar o trabalho e impedir o crescimento dos evangélicos no país.

Macedo saiu fortalecido da prisão, inclusive conseguindo a adesão de outros segmentos evangélicos, inclusive de vários pastores pentecostais. O discurso adotado foi o do direito à liberdade religiosa.

Este discurso foi novamente adotado em três polêmicos episódios em que a Universal rivalizava, ao mesmo tempo, com a Rede Globo e, de quebra, com a Igreja Católica, duas das mais poderosas instituições do país. O primeiro episódio foi a minissérie Decadência, de 12 capítulos, escrita por Dias Gomes e exibida em setembro de 1995 pela Globo. O segundo episódio foi o famoso “chute na santa”, ocorrido um mês depois da minissérie. Em pleno 12 de outubro, feriado de Nossa Senhora Aparecida, Sérgio Von Helde, bispo da Universal, responsável pela igreja no Estado de São Paulo, em dois programas matutinos da Record, tocava com os pés e os punhos a imagem da santa. O terceiro episódio foi a publicação de um vídeo, no qual Macedo aparecia ajoelhado, rindo para a câmera enquanto contava dinheiro da coleta num templo em Nova York, divertindo-se num iate na paradisíaca Angra dos Reis (RJ), dançando numa vigília em Copacabana e, no trecho mais devastador, durante intervalo de um jogo de futebol com a cúpula da igreja, ensinando, de modo debochado e em meio a termos chulos, pastores e bispos a serem mais agressivo, persuasivos e eficazes na arrecadação de recursos dos crentes. Macedo dizia para os líderes pedirem mais e mais: “Você tem que chegar e se impor... Você nunca pode ter vergonha. Peça, peça, peça. Quem quiser dá, quem não quiser não dá. Ou dá ou desce”. 


Participação Política: Clientelismo e Antiesquerdismo

Junto com a Assembleia de Deus, a Universal é a igreja pentecostal que faz mais sucesso na política. Iniciou a sua primeira candidatura própria em 1982. A Universal não mede esforços para eleger seus candidatos, nem tenta camuflar a sua participação no meio político. Não contra a política, pelo contrário, a utilizam para defender seus interesses. Pastores e bispos pedem abertamente votos de púlpito. Obreiros distribuem “santinhos”. Suas emissoras fazem propaganda eleitoral, convidando seus candidatos para participar de entrevistas. Em 1986, a Universal elegeu um parlamentar para o Congresso. Em 1990, conseguiu eleger 4 deputados federais e três estaduais. Em 1994, Elegeu seis deputados federais e seis estaduais. Em 1998, ampliou consideravelmente sua representação: elegeu 14 deputados federais e 26 estaduais.

A Universal mantém uma ideologia política baseada no moralismo e no antiesquerdismo. Nas eleições de 1990 e 1994 atacou publicamente a candidatura do candidato do PT, Lula, associando sua imagem, a dos padres e do Diabo. Ter por filosofia não se filiar à partidos de esquerda.

 

3.3. Igreja Internacional Da Graça De Deus

Em 1980, após se separar da Universal do Reino de Deus, Romildo Ribeiro Soares fundou a Igreja Internacional da Graça de Deus, na cidade do Rio de Janeiro. Nasceu em Muniz Freire, ES em 1948. Sua era católica e seu presbiteriano desviado. Se converteu aos 6 anos num culto presbiteriano. Logo em seguida começou a freqüentar a igreja Batista, na qual permaneceu até os 16 anos, quando mudou-se para o Rio, onde ficou afastado do evangelho por 4 anos. Em 1968, filiou-se à Nova Vida, igreja na qual se casou e permaneceu como membro. Em 1975, foi consagrado pastor na Casa da Benção e participou da Fundação da Cruzada do Caminho Eterno. Dois depois, fundou a Igreja Universal, da qual saiu em 1980.

Soares não cursou seminário, mas bacharelou-se em direito na Universidade Gama Filho, rio. É ele quem comanda o televangelismo e a organização eclesiástica da igreja. A sede localiza-se no Meyer, Rio. Até 1998 a igreja só possuía 317 templos.

A Internacional se parece muito com a Universal. Adota agenda semanal, abre as portas diariamente, prega curas, exorcismos e prosperidade, utiliza intensamente a TV, tem líder carismático e pastores jovens e sem formação teológica, não concede autonomia as comunidades locais, e é liberal em matéria de usos e costumes. Seus pastores recebem um curso bíblico de 12 meses. Possui duas classes de pastores os comissionados e os consagrados. Para ser consagrado o pastor deve ser casado e ter vocação pastoral. Trabalham de tempo integral, recebendo de 3 a 5 salários mínimos. Valorizam mais a TV do que o rádio. 

 

3.4. Renascer Em Cristo

A Renascer foi fundada na capital paulista em 1986 pelo casal Estevam Hernandes Filho, ex-gerente de marketing da Xerox do Brasil e da Itautec, e Sônia Hernandes, nutricionista e ex-proprietária da butique La Belle Femme.Toda a família de Estevam é de origem espanhola se converteu a uma igreja pentecostal. Aos 20 anos ingressou na Pentecostal da Bíblia do Brasil, depois freqüentou Cristo Salva e a Evangélica Independente de Vila Mariana, das quais adotou a ênfase musical como recurso evangelístico. Já Sônia, cuja família era da IPI (Igreja Presbiteriana Independente), da qual seu pai é presbítero, aceitou Jesus aos 5 anos e foi batizada no Espírito Santo aos 12.

Em 1986, juntamente com um grupo de crentes de classe média o casal fundou os trabalhos da Renascer numa pizzaria. Em seguida tomaram emprestado um templo de uma igreja pentecostal, e em 1989, alugaram o Cine Riviera, no Cambuci, transformado em sede nacional da denominação depois de comprado por um empresário membro da igreja.

Em 1998, a Renascer contava com mais de 300 templos, a maioria em São Paulo. Em 1995, adotou governo eclesiástico episcopal, cujo topo hierárquico é ocupado por Estevam Hernandes, promovido então a apóstolo. A maioria de seus pastores são de tempo parcial. Cerca de 10 % são mulheres. Esposas de pastores são co-pastoras. O ensino teológico fica a cargo da Escola de Profetas, com duração de 2 a 3 anos.

A fundação Renascer, criada em 1990, administra a denominação. A Renascer em Cristo detém a patente da marca Gospel no Brasil, a cúpula possui rádios, emissora de TV UHF, a produtora RGC, a Editora Renascer, o jornal Gospel News, o Instituto Renascer de Ensino, o Cartão Gospel Bradesco Visa e a livraria Point Gospel em cada templo. Também possuem uma gravadora e uma casa noturna.

Realiza megaeventos na cidade de São Paulo e encabeça o movimento Gospel. Dá prioridade aos programas de TV, enfatizando sempre a música gospel tanto em rádio com TV. É liberal quanto a usos e costumes. Seu público alvo são os jovens, empresários e profissionais liberais. A denominação tem um consistente papel na ação social semelhante a Universal; na política apóia os candidatos evangélicos e é contra candidatos da esquerda.

 

3.5. Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra

Fundada em Goiânia em 1976, a Comunidade tem sua origem diretamente ligada à biografia de seu líder Robson Rodovalho, professor de física licenciado da Universidade Federal de Goiás, é proprietário da Editora Koinonia e autor de vários livros com ênfase na guerra espiritual.

Rodovalho vem de família kardecista, freqüentadores assíduos às sessões da mesa branca na casa do avô. Robson e sua mãe iam a festas e giras de umbanda nas tendas erguidas na fazenda da família por empregados oriundos da Bahia.

A vida de Rodovalho mudou radicalmente quando matou por acidente, na fazenda dos pais, o caseiro da fazenda. O adolescente Robson com 14 anos ficou desequilibrado emocionantemente, com tiques nervoso e frustrado com os guias que não o ajudaram. Decepcionado, um ano depois, converteu-se num acampamento realizado pela mocidade da IPB. Seus pais logo se converteram.

Paralelamente à freqüência à IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil), Robson se filiou à MPC (Mocidade Para Cristo), passando a evangelizar e formar clubes bíblicos nos colégios. Tornou presidente estadual da MPC. Aos 17 anos recebeu o batismo do Espírito Santo num acampamento da MPC. Meses depois iniciou sua própria igreja em Goiânia.

Em 1976 foi consagrado pastor e fundou a Comunidade Evangélica, cuja terminação Sara Nossa Terra só foi adotada em 1992. Para diferenciá-la das demais. Em 1997, adotou governo eclesiástico episcopal, ocasião em que Rodovalho foi consagrado bispo primaz.

Em 1996, a igreja tinha mais de 200 templos, sendo a maioria de seus membros são de classe média. A arrecadação é centralizada. Não obriga seus pastores a cursarem teologia. O próprio Rodovalho fez curso teológico por correspondência. Pastores e esposas são consagrados ao ministério.

Desenvolve ação social. Dá ênfase a parte musical. Por causa de experiência de seu líder na MPC fundou a organização “atletas de Cristo” de vários times de futebol.


 

4. CARACTERÍSTICAS DO MUNDO NEOPENTECOSTAL 

4.1. A “guerra santa” contra o diabo

Esta sofre uma ênfase excessiva por parte dos neopentecostais. Devido à dificuldade de explicar a presença do mal, do pecado e do sofrimento no mundo, os neopentecostais apelam para a figura do diabo como responsável causador de tais males, entre outros. O mal não pode vir de Deus, portanto a culpa é do diabo.

Mariano afirma que a banalização dos fenômenos sobrenaturais nas igrejas pentecostais ocorre porque pastores e fiéis enxergam a ação divina e demoníaca nos acontecimentos mais insignificantes do dia-a-dia. Para eles não há acaso. Existe um sentido para tudo e a Bíblia contém todas as respostas de que necessitam. E eles não estão nem um pouco dispostos a abrir mão do sentido que o personagem do diabo e de seu criador e oponente, Deus, são capazes de conferir à precária e sofrida vida humana.

Com a demonologização das crenças, rituais, deuses e guias dos cultos afro-brasileiros e espíritas, os pentecostais vieram travar o que a mídia brasileira denominou de “guerra santa”. Foi um termo usado inadvertida e exageradamente em comparação (se é que se pode comparar) à guerra religiosa, política, econômica e territorial travada entre árabes e judeus, protestantes e católicos na Irlanda. Tal “guerra” desencadeou-se na década de 1980, porque até então as vertentes pentecostais precedentes não atacavam esses adversários direta, sistemática e até fisicamente, como o faz a Igreja Universal hoje. Do conflito velado passou-se para o conflito aberto e hostil, do discurso polêmico-pacífico, para o discurso polêmico-agressivo-físico. No entanto, devido a processos e inquéritos judiciais que sofreu, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) têm lançado mão de uma versão mais light e menos visível desta “guerra”. Mas além da IURD, participam também desta exacerbação da guerra contra o diabo igrejas do deuteropentecostalismo, como a Deus é Amor e a Casa da Bênção. Todavia, a exacerbada pregação da guerra espiritual se distingue teologicamente, ainda que em termos de ênfase, as igrejas neopentecostais do pentecostalismo clássico e, em menor grau, do deuteropentecostalimo. Mariano relata discursos de R. R. Soares e de Edir Macedo onde se vê que, para estes pregadores, a extensão da ação demoníaca é quase ilimitada (p. 114).

Os neopentecostais crêem que o que acontece no “mundo material” decorre da guerra travada entre as forças divina e demoníaca no “mundo espiritual”. E os seres humanos, para eles, estão no meio deste campo de batalha – no “mundo material”, que é onde se trava esta guerra – de um ou de outro lado. Por isso, pertencendo ao lado divino, acreditam ter poder e autoridade, concedidos por Deus, para, em nome de Jesus, reverter as obras do mal. Os representantes destas (agências satânicas) são, justamente, os adeptos do espiritismo e dos cultos afro-brasileiros, cujo objetivo, segundo eles, é levar os seres humanos à perdição.

Na guerra contra o diabo há inimigos, soldados, batalhas, luta, munição, manobras, impiedade, perigo, resistência, crimes, castigos, desafios, destruição, libertação, vitória e derrota.


4.2. A concorrência inter-religiosa

Trata-se de uma disputa acirrada para cooptar adeptos e mantê-los num mundo onde impera o pluralismo religioso. Em seu sectarismo, os pentecostais até há pouco eram reconhecidos, e muitas vezes estigmatizados, pela veiculação de sua própria identidade, uma vez que a conversão pentecostal implicava mudar de comportamento, de estilo de vida, de visão de mundo e a participação preferencial da comunidade religiosa. Mas hoje isso mudou, parcialmente, com a mobilidade social de parte da membresia e com a irrupção do neopentecostalismo. No entanto, mesmo que tenham ficado menos sectários e menos distintos, continuam intransigentes no plano religioso.

Essa intransigência discursiva vem da convicção e da certeza de serem portadores da verdade divina, constituindo a forma de auto-afirmação e de defesa da identidade religiosa. Até mesmo em outras igrejas pentecostais existem as exclusivistas que negam às outras, para retirá-las do páreo e desqualificá-las, a posse dos bens da salvação. Sendo portadores de identidades em conflito, disputam palmo a palmo o monopólio dos bens da salvação e da definição dos símbolos sagrados.

Os pastores e os fiéis criticam tudo à sua volta a partir de sua interpretação bíblica. Elegem o mundanismo e as outras religiões como alvos prediletos de ataque, ou seja, canalizam sua agressividade para os de fora de seu grupo. Todo tipo de “concorrência” leva-os a se aclamarem como detentores exclusivos da verdade e virtude bíblicas que conduzem à salvação. Mas correm o risco de desencadear, senão a guerra santa, pelo menos uma perversa maré de atos de intolerância explícita, quando impõem sua verdade ou quando se dizem cumprir ordenas pretensamente divinas.


4.3. Objetos benzidos e correntes de oração

É interessante notar que os neopentecostais muito se assemelham aos adversários que mais combatem. Mariano relata que Universal e Internacional da Graça distribuem aos fiéis objetos ungidos dotados de poderes mágicos ou miraculosos, ato que mais uma vez as aproxima de crenças e práticas dos cultos afro-brasileiros e do catolicismo popular.

Segundo Edir Macedo, o uso e a distribuição de objetos visa despertar a fé das pessoas e constitui uma das técnicas de pregação empregadas por Jesus em sua passagem pela terra. Depois de ungidos, os objetos são apresentados aos fiéis como dotados de poder para resolver problemas específicos, em rituais diversificados e inventivos, tendo por referência qualquer passagem ou personagem bíblicos. Dotados de funções e qualidades terapêuticas, servem para curar doenças, libertar de vícios, fazer prosperar, resolver problemas de emprego, afetivos e emocionais. Não apresentam caráter meramente simbólico como alegam os pastores quando inquiridos pela imprensa e por outros interlocutores. Para os fiéis, cujos poucos recursos são desembolsados em troca de bênçãos nas correntes de oração das quais participam dias ou semanas ininterruptamente, tais objetos, pelos quais esperam ter seus pedidos atendidos, contêm uma centelha do poder divino.

Não obstante os meios pentecostais tradicionalmente se oponham ao uso de objetos sagrados (exceto a Bíblia) dotados de poder mágico e terapêutico para não sucumbirem à idolatria, Universal e Internacional, mediante o pagamento de ofertas espirituais, distribuem aos fiéis rosa, azeite do amor, perfume do amor, pó do amor, saquinho de sal, arruda, sal grosso, aliança, lenço, frasquinhos de água do Rio Jordão e de óleo do Monte das Oliveiras, nota abençoada (xerox de cédula benzida), areia da praia do Mar da Galiléia, água fluidificada, cruz, chave, pente, sabonete. Tal como na umbanda e no catolicismo popular, recomenda-se que eles sejam ora guardados na carteira, carregados no bolso e daí por diante (MARIANO, pp. 133,134).

O discurso das igrejas Universal e Internacional da Graça é altamente repetitivo, lida com os mesmos problemas, apresenta as mesmas soluções e faz o mesmo diagnóstico de suas causas. Para tornar o culto mais atraente e menos enfadonho, algo precisa variar. O que varia são as formas dos rituais, bem como o modo de participar deles e o sacrifício (a quantia de dinheiro) exigido para o fiel habilitar-se a receber as bênçãos desejadas ou propostas. Sua capacidade de diversificar o repertório simbólico parece inesgotável. Daí encontramos corrente: de Jó, de Davi, do tapete vermelho, dos 12 apóstolos, do nome de Jesus, da mesa branca, do amor, das 91 portas; campanha do cheque da abundância, vigília da vitória sobre o diabo, semana da fé total. Estratégia para socializar e converter clientes e novatos, as correntes ou campanhas exigem a presença do fiel numa seqüência de cultos durante 7 ou 9 dias e até por 12 semanas consecutivas. A quebra da corrente, isto é, a ausência do fiel em algum dos cultos em que se prontificou a comparecer, impede a recepção da bênção esperada em razão da ruptura do elo que começara a se estabelecer entre ele e Deus. Atribui-se a culpa pela quebra da corrente aos demônios. 

 

5. Bibliografia


Este texto foi enviado a nós por um de nossos visitantes. Acreditamos ter sido um dos três autores. Agradecemos.